O que esperar das eleições brasileiras de domingo. E depois

Um mês atrás, nesse mesmo blog, eu e Bilyana Petrova escrevemos sobre a meteórica ascensão de Marina Silva nas pesquisas de intenção voto para as eleições presidenciais do próximo domingo no Brasil. Àquela altura, impulsionada pela surpresa de sua entrada tardia no pleito, pela comoção causada pela morte de seu antecessor, pelo recall herdado de seu bom desempenho em 2010, e pela sabida associação entre ela e muitos dos eleitores descontentes e indecisos, Silva tornou-se a principal candidatura de oposição à reeleição de Dilma Rousseff do PT. Não apenas ela ultrapassou Aécio Neves do PSDB nas pesquisas, como passou a figurar como favorita em um eventual segundo turno contra Rousseff.

A hipótese de uma vitória de Silva mobilizou os cientistas políticos e outros experts. Por um lado, satisfez aqueles que advogam – sem claras demonstrações empíricas – que a política brasileira faliu após a redemocratização, marcada por um pragmatismo irresponsivo, em que a corrupção e a patronagem se sobrepõe facilmente ao debate de ideias. Nesse sentido, a vitória de Silva era a demonstração do desconforto dos eleitores para com o estado das coisas no país e sua rejeição à polarização entre PT e PSDB – e a seu correlato, o “peemedebismo”. Ela indicava novos tempos, marcados pela clara mensagem de apoio à “nova política” que Silva apresentava como plataforma.

A possibilidade de que Marina Silva fosse eleita Presidenta também tocava os experts que defendiam – como eu, Scott Mainwaring e Timothy Power em paper recentemente apresentado em uma conferência sobre os partidos latino-americanos em Notre Dame, IN, EUA – que o sistema partidário brasileiro tinha se institucionalizado desde a redemocratização, e que a preservação da bipolaridade PT x PSDB era uma das principais causas dessa institucionalização. Ao estabilizar a competição para o principal cargo político no país, a bipolaridade PT x PSDB replicou-se em outras dimensões do sistema (no Congresso, nas eleições subnacionais, e entre os eleitores), contribuindo para a consolidação do sistema. Sua eventual superação pela candidatura Silva – alguém que pelos critérios de Miguel Carreras, seria um tipo de political maverick – demonstrava que, contrariamente às nossas expectativas, o sistema ainda se encontrava parcialmente em um estado de fluxo, e alguém com todas as características de um “outsider” podia ascender à Presidência da República advogando algo tão velho quanto a “nova política” antipartidária.

Um mês depois e há quatro dias das eleições, o que temos? Silva vêm perdendo eleitores dispostos a votar nela sistematicamente nas duas últimas semanas, desde que as baterias de ataques de seus principais adversários se voltaram contra ela, e ela, dada as próprias características de sua candidatura, tem tido poucos recursos e discurso para enfrentá-los. As pesquisas mais recentes, divulgadas apontam Silva aproximando-se um empate técnico com Aécio Neves, e dadas as tendências recentes observadas na trajetória das intenções de voto de cada um dos candidatos, não é impossível que Neves saia das urnas no domingo como o adversário de Roussef no segundo turno.

Independentemente de quem seja o adversário da Presidente Rousseff no segundo turno, as recentes pesquisas apontam que ela recuperou a condição de favorita em um eventual segundo turno, devendo ser reeleita Presidente do Brasil em 26 de outubro. Obviamente, dada a enorme volatilidade observada nas ultimas semanas, qualquer previsão sobre os resultados eleitorais do segundo turno não pode ser tomada como definitiva. No entanto, como Andrés Malamud demonstrou em recente post nesse mesmo blog, a história recente das eleições latino-americanas tem jogado a favor de presidentes candidatos a reeleição, o que reforça a expectativa de que Roussef pode mesmo sair vitoriosa do pleito.

O que a recente dinâmica das intenções de voto significa para as interpretações sobre o sistema partidário brasileiro? O leitor não se surpreenderá se eu disser que a virtude, como sempre, esta no meio. Por um lado, a reação de Rousseff e o declínio das intenções de voto em Silva a partir do momento em que o caráter excepcional de sua candidatura se diluiu durante a campanha demonstra que a receptividade do eleitorado brasileiro a political outsiders e menor do que os defensores da visão pessimista acreditam existir. Quando Marina foi confrontada a enfrentar as intempéries de uma campanha eleitoral a falta de profundidade de suas propostas e a heterogeneidade de interesses que ela representa se mostrou tóxica para a manutenção do apoio inicialmente recebido. Além disso, nós podemos esperar que como faltam a Marina as candidaturas subnacionais competitivas que contribuem para a nacionalização de campanhas – mencionadas acima –, sua capacidade para preservar os eleitores que conquistou logo apos a morte de Eduardo Campos esteve seriamente limitada, particularmente quando competindo com PT e PSDB, tradicionalmente fortes nos maiores colégios eleitorais do pais.

Por outro lado, a meteórica ascensão de Silva e sua eventual ida ao segundo turno no lugar do candidato do PSDB demonstra os limites da institucionalização do sistema partidário brasileiro recente. Essa institucionalização foi, aparentemente desigual. O Partido dos Trabalhadores pode se desenvolver e ampliar seu eleitorado cativo. O mesmo não ocorreu com o PSDB, seu principal adversário no período. Como Scott, Tim e eu mostramos em nosso paper, o eleitorado que sistematicamente votava em candidatos presidenciais do PSDB não o fazia por partidarismo, mas por uma difusa adesão ao principal partido de oposição ao governo. Quando um candidato alternativo de oposição emergiu e se mostrou competitivo, eleitores antes apoiadores do candidato “tucano” migraram para Silva. O decréscimo das intenções de voto de Silva e o retorno de muitos desses eleitores para Aécio Neves demonstra a volatilidade desse eleitorado, mas também sua relativa resistência a candidaturas como as de Silva.

O que acontecera no próximo domingo e uma incógnita. De certo temos apenas que Dilma Rousseff estará no segundo turno e que entrara nele como favorita. Seu adversário ainda esta por ser definido e as consequências dos resultados dessa eleição para a dinâmica partidário-eleitoral brasileira também. De qualquer forma, o fato de que 15 meses apos a maior onda de protestos populares em 20 anos no Brasil, nós estejamos diante de uma supercompetitiva eleição demonstra a capacidade do sistema politico brasileiro para absorver as manifestações e incorporá-las ao processo institucional, sem que a democracia das ruas destruísse a democracia das urnas que nos custou tanto construir.

Acerca de Fernando Bizarro

Fernando Bizarro es estudiante de Doctorado en el Hellen Kellogg Center de la Universidad de Notre Dame, Estados Unidos.

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